terça-feira, 23 de novembro de 2010

Anatomia dos Ventos

São os ventos que nos trazem e levam. Um dia me disseram que no tal calendário maia eu sou vento. Acho que todos nós somos meio vento... às vezes um vento assustado, outras daqueles teimosos. Ventania, assopro, ventinho. Depois de muito tempo, consegui escrever novamente sobre o vento, e agora com o título que dá nome a este meu espaço. É isso.

ANATOMIA DOS VENTOS

Engrenagem dos ventos,
Combustível do tempo
Me lambuze com teus babados
Fique grávida de minhas idéias
E me dê seus seios e seu leite em toda
Essa infância teimosa até para se acabar.

Arquitetura de minhas sombras,
Parede dos invisíveis
 Minha calha, minha goteira.
Meu conta-gotas e minha inundação.

Coreografia do fogo,
Atalho engarrafado dos ventos
Martelo de líquido e vidro da nossa justiça.
Gole quente e amargo
Queima a minha garganta,
Assanha meus lábios com tuas ardências
Ó Santa Cana dos meus desastres e de minhas manutenções.

Me ensina, me aprende e me seja:

Meu trêmulo umbilical,
A insônia do meu gozo
E as inquietudes do meu estômago.

Farelos caídos do tempo,
Os ponteiros preguiçosos do destino
Um relógio sem pressa e emprego

Onde eu compro horas?
Onde eu compro horas?
Onde eu compro horas, hein?

Relicário dos ventos,
Guardados de momentos
São garranchos tortos em silêncio
A vida já é um trocadilho
A gente é que passa ligeiro.

E a minha?
Minha vida é a anatomia dos meus ventos.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

É pelos ventos que eu vou

O gosto pelos escritos não é de agora, tampouco dez ou doze anos. Inclusive, acho que gosto muito mais de escrever do que ler, confesso. Não sou um grande leitor, o que pode parecer antagônico, pois em breve se concretizará um projeto de tempos, primeiramente através da Caracol Escritos & Merendas, livraria bonita que vem por aí e da qual sou sócioamigo. Eu leio, mas nem tanto, e também nem pretendo. Quando fascinado por algo, me dedico não somente aos escritos em si, mas em descobrir e saber mais sobre o autor, sobre suas coisas. Daí, é um mundo que possibilidades que se anuncia. A última "descoberta" dessas foi o Mia Couto, há pouco mais de ano, e a partir daí muitas coisas acenderam a lampadinha das idéias. Não venho de uma família de leitores, apesar que o pai sempre lia o jornal e a mãe volta e meia aparecia com revistas de fofocas em casa. Nossa situação financeira era uma, o local em que víviamos tinha outra dinâmica. Era um contexto próprio, no qual se valorizavam outras coisas. Me lembro escrever, na segunda série, uma estória sobre um tatu-bola, coisa de colégio. Fui premiado e tudo, mandei bem. Hoje, escrevo sobre caracóis, que despertam meu fascínio.


Na terceira série, a minha onda era ser cantor sertanejo. Adorava aquelas duplas todas. Mas meu irmão nunca quis cantar comigo. Vai saber... Até hoje, admito, eu gosto de algumas das músicas dessa época. E isso é problema meu! Foi nesse ano também, 1992, que ganhei um concurso na turma, o prêmio foi uma caixa de chocolate Bis. Era uma espécie de show de talentos, e eu fiz uma música que não tinha nada com nada, mas era divertida por si só. Mais ou menos assim:

"Mas hoje eu vou pra Santa Rosa
Comer galinha e farofa
Vou ver no mar um boto rosa"

Para quem não sabe, Santa Rosa é a cidade natal da Xuxa. Mas e Santa Rosa tem mar, é? E mar tem boto-rosa, é?
Mais tarde, bem mais tarde, foi a coisa do RAP. Alguns escritos dessa época já coloquei aqui, dá pra se perceber bastante as referências. E assim foi indo. Eu fiquei um bom tempo sem escrever, desacreditado nas minhas palavras. Agora, considero a melhor produção que poderia ter. Acalantos, músicas infantis, textos, poesias. A Anatomia dos Ventos. Dos meus ventos.

domingo, 30 de maio de 2010

Da caixa de papelão II

Escrito antigo, interessante ele. Deve ter sido escrito entre 2001 - 2003.

Remixando Rotinas 

Quando tudo se complica em nossa cada vez mais conturbada favela umbilical
As cadências, descidas de ladeiras, ruptura de extremos
Fusões dicotomiais e as diversidades mais excêntricas possíveis 
Fotografam o âmago cru dos fatos revelando 
O que só não vê quem não quer crer. 
O advento quase marginal de soluções “publiciotárias” 
Aborta repentinas idéias (r)evolucionárias 
Oriundas da forjada sub-cultura mundial 
Que renumera inocentes. 
Hemorragias intra-favélicas excitam 
As ânsias comunitaristas do morro que há na gente 
E folclorizam embriões para todas as fábricas e formas industriais do descaso. 
Idéias singulares de sincretismo e ortodoxismos adjacentes 
Desmistificam o imprevisível ontem que não passou. 
Porque toda miscelânea é etc, 
É vanguarda sampleada, é ciência artesanal 
É o orgânico do outro lado da rotina 
É o DJ remixando a comodidade e a miopia.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Grão Vermelho

No ócio da terra,
Agriculturas de vazios daninhos
Nos confins da lonjura
Grão vermelho é cólica, é praga
É a cárie no riso anônimo
De escritórios, impressos, favores.

Armazéns de promessas,
Lavouras de farpas 
Suas cercas são fardas.

No cio da terra,
Grão vermelho é gozo, é esperma
Natureza abre as pernas.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Volte sempre, boa viagem

Não só papo de "bêbo" em confessionário molhado e não somente alegria de aniversário, este texto surge como uma "provocação" (de provocar + ação) entre dois amigos que se admiram enquanto seres humandos e seres-mundo que são. Como idéia, as placas que sinalizam diversas informações pelas rodovias que caminham pelo Brasil. A estrada que chega e traz o novo. Para não passar batida esta minha passagem por Maceió, rabiscamos essa idéia, e que talvez seja utilizada no próximo disco do meu irmão Vitor Pirralho. É bem diferente dos meus costumes escritos, mas vai carregada de coração.

Trecho em Obras
(luz / Vitor Pirralho)
16.03.2010

Parado diante da estrada andante
Errante ou certeiro para o alto e avante

Trecho em obras, alegrias de sobra
Primeiro a esquerda e a direita é que se dobra
Mantenha a distância do olho gordo e da ganância
A preferência é sua, trecho livre pra esperança
Velocidade máxima permitida
Corre pro abraço na hora da partida
Seja bem-vindo nessa feliz cidade
Curta o passeio, volte sempre, boa viagem.
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É isso, o trecho está em obras. Quer ajudar construir?
 

terça-feira, 16 de março de 2010

Em cada passo uma origem pros vários destinos que todo mundo tem

Iniciado tempos atrás, mas ainda recente, um pouco de sensibilidade faltava para o término desse escrito. Já falado ali embaixo, essa tal insônia vem me dando luz para elucidar algumas coisas, traçar roteiros, escrever outras. E eis que nesta madrugada, para mim de renovação, duas novas poesias me surgem: Idioma Amém, cá lá embaixo, e Gigante, iniciada nos confins do inverno passado. E "Gigante" fala por si só: apressemos o perdão, cuidemos bem de nossos amores, amemos as coisas mais simples. Assim, coração fica gigante... 

Gigante

Olha as formigas ali no chão
Tipo fila indiana, desfile de samba, avenida, procissão.
Olha as crianças no jardim
Fazendo piquenique, brincando de roda, mastigando capim.
Olha aquele casal de velhinhos
De mãos trêmulas dadas, descansando a pressa, inventando carinhos.

Coração fica gigante quando paro pra olhar
O tempo todo é um instante, aqui ou em qualquer lugar
Coração canta sereno quando dá pra respirar
Me sinto gigante quando estou no meu lar
Meu lar, meu coração
Meu coração, minha sala de estar. 

Olha os passarinhos fora da gaiola
Assoviando alegrias, cantando prazeres, acompanhando a viola.
Olha o pai levantando pandorga
No colo do filho e nas lembranças de uma vez que já se foi embora.
Olha os primeiros passos do neném
Em cada passo uma origem pros vários destinos que todo mundo tem.

Coração fica gigante quando paro pra olhar
O tempo todo é um instante, aqui ou em qualquer lugar

Coração canta sereno quando dá pra respirar
Me sinto gigante quando estou no meu lar
Meu lar, meu coração
Meu coração, minha sala de estar.

A primeira dos 27

Aproveitando a recente insônia que me visita noite sim outra também, eis que em uma mesma surgem dois novos assopros. O primeiro, este do qual esse post se trata, e um segundo, conclusão de obra em construção de tempos, mas que voltarei mais tarde para discorrer sobre. A idéia é aquela: precisamos de templos para nossa fé? O cristianismo, e principalmente o catolicismo, sempre surge com fortes palavras e lindos dizeres, parábolas para vida, grandes punições e atrevimentos. Fé, cada um tem a sua. E esse texto não se preocupa em criticar ou questionar a fé católica, até mesmo pelo fato de eu usar em meu pescoço um terço de lágrimas de Nossa Senhora, pedido para minha mãe quando de minha recente descoberta pela fé. Só insisto na idéia de que cada um faz e acontece, independente de qual a sua religião, da maneira que mais lhe convém. Eu entro em igrejas, rezo ajoelhado. Mas isso não significa que preciso ouvir o que o padre tá dizendo lá na frente, ou que realmente acredito ser um pecador e só mesmo a penitência vai me salvar. Minha hóstia é o self-service barato, e por isso agradeço. Sinal da cruz quase sempre erro (quem mandou nascer canhoto?). Mas minhas crenças são sempre verdadeiras, pelo menos enquanto nelas eu acreditar.

Idioma Amém

Misericórdia minha cama quente
O meu silêncio alto-falante entre os dentes
Os meus milagres inventados na insônia
O meu sangue de Cristo tinto e seco em 5 litros.

Amém.
Amém.

Pés com a dor e o peso do insuportável
Minha confissão é no boteco encharcado
Os sinos que me chamam sonâmbulas mentiras
Minha hóstia consagrada self-service barato

Amém.
Amém.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

A mágica inocência do simples viver... ...a trajetória dos sonhos

É pelos sonhos que vamos. Sonhos não envelhecem, e sonhar não é o que resta. Chegado este ano, nenhuma trilha a ser seguida, pois valeu a pena esperar. O que quero tá logo ali, a dois passos daqui. Me transformando em "gigante", parando para olhar, respirar. Seguindo a trajetória torta dos sonhos, a trêmula delícia de minha imaginação sonâmbula que trabalha enquanto durmo, e que desde pequeno me mostra como se voa. Mãos pra baixo, punhos cerrados, joelhos em disparada. Alto e avante. O "Auto do Céu de Lápis de Cor". É isso. 2010, "a trajetória dos sonhos". Rabiscos idos. Idéias vindas.

A trajetória dos sonhos

As lembranças esquecidas da faxina vencida
As imagens rasgadas de um futuro ainda não fabricado
O chão que gira sob os joelhos que nos trazem fé
O medo sem cura de ser amado
As cordas desafinadas de um instrumento de quimeras
O sorriso faceiro do recém curioso
O vôo das cortinas de um palco sem enredo
A espera do "não" em mais uma feérica paixão que se encerra
A queda das cercas de meu caracol imaginário
O odio romântico da busca por um novo mundo
As saudades sentidas por alguém que ainda nem se conhece
O batuque sincero dos bêbados dos velhos tempos
As cores nubladas das roupas de um dia outro alguém
O agrado nas oferendas por mais um obrigado do próprio eu
O último sarro da noite preguiçosa
O perfume do após diversão de horas poucas
As danças ligeiras por entre as vaidades da vida
A identidade roubada por alguém que não se soube amar
As rezas sussurradas na hora do aperto
As flores quase mortas roubadas de jardins do egoísmo
As leituras a longo prazo de livros das mais distantes realidades
O solitário desafio de seguir sozinho
As estrelas contadas em noite de céu vazio
Os amigos de muito tempo neste último minuto
O comentário confuso de interpretação errada
A tragédia da esperança que se cansa
O longo abraço de dois braços de quem se dá e tem carinho
A mágica inocência do simples viver...
...a trajetória dos sonhos!

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O meu mapa não diz fronteiras

Engavetada há muito tempo, dias atrás eis que vem com nova intenção. Agora, com algumas mudanças, "Ciências de Barro". Aos amigos da Tribo Brasil, com sua fineza na escolha de seu repertório e arranjos. Belo time, bela festa, belo baile. Alegria, sorriso de piano no rosto (quantos centímetros tem um sorrisão desses?). É isso. Aprendizagem de tempo, das lembranças que inventamos, das vontades que temos. Chão que não tem fronteiras, idioma de gírias, ditos, sotaques e maneirismos. Brinquedos de coisas sérias, cores de sabores, cheiros de saberes. Calos que vestimos e que nos dão proteção, escudos pro sim e pro não. Respeito que não se impõe e nem se paga. Bobagens poucas que de num muito aproximam distâncias. Senhora dona da casa, deixa a gente brincar. Salve o boi, o congado, os beats eletrônicos, funk de morro, improviso de boteco. Salve a bagunça que nos organiza para o dia e que arrepia. Enquanto o coração bater, haverá música. Enquanto a gente estiver juntos, a gente abusa. Bumba!

Ciências de Barro

Bumba um curioso na barriga da nação
Sêmen pra inventar o futuro
Meu sotaque confuso nas veredas do susto.

Palavras que rasgam o bucho do papel
Minhas ciências de barro colorindo
O amarelo encardido dos livros
A bagunça na folia dos antigos
O garrancho na cerca de vizinhos
Os sabores dos saberes dessa Tribo.

O preto e o branco do tempo e o pó
Suspiros que não me deixam só

O meu mapa não diz fronteiras
Meu respeito não são bandeiras

O meu hino, o meu santo, minha feira.

Minha catequese é tudo que aprendi
Minhas raízes os calos que vesti.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

"não te esquece do beijo da mãe antes de dormir, tá?"

Vontade antiga, mas sem pressa de feitura. Quando com um montante considerável, algum tipo de registro terá. Tava viajando este final de semana, no sábado, pensando nos dias, olhando a corrente sanguínea da estrada e os cabelos da natureza chacoalharem com o vento parado. Durante a semana, queria gritar algo como fosse um "eu quero minha mãe", tamanho desespero de cansaço. Por estes últimos dias, não consigo nem ver pai e mãe. Ainda por esses dias, achei osignificado afetivo em falar "papai" e "mamãe". Coisa bem boa. E pela estrada, pensei em como nossa proteção, tanto a que realmente temos como a que buscamos, várias vezes remete ao umbilical dos sentidos. Posição fetal, essa vontade de gritar, outras tantas. Aí, essa frase de cima. A coisa do beijo como um elo incansável de afeto. Ave-mãe! E como o beijo é como um ponteiro de um relógio onde as horas não se passam ali. Assim é tem tempo. Ou tem beijo. E foi daí que fiz este acalanto, cantiga de ninar, sopro de vento, assobio de destino. Deliciemo-nos.

Acalanto da Saudade dos Sonhos que vem

Vem cá meu filho aqui pra casa
Vem cá meu filho, aqui com papai
Vem cá meu filho, aqui com mamãe
Que o sono de hoje ainda não dorme
O sono de hoje ainda não dorme
Os sonhos de hoje... Ainda vêm!

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Respirando

Guardar as memórias no coração e pensar com o pulmão, necessário.

Pulmão

Enquanto há lembrança há encontro
Coleciono instantes a todo instante.
Só se é porque se conta
E o silêncio da ausência aumenta um ponto.

As nossas saudades e a nossa esperança
Vez em quando sufoco, melhor ir na manha.
O tempo pede freio, um som mais lento
Daqui pra frente acelera e vira bento.

Hoje minha casa é o meu coração
Muito engraçada e cheia de um pouco
É o fiapo de sol

A umidade colada
Os farelos no chão
Minhas tortas palavras.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

O pôr-do-céu pode ser delícia ou amargo

Pôr-do-céu

Bem-vindas luzes artificiais,
Um rosário de luas suspensas e elétricas
Lâmpadas curiosas por nossas idéias.
No silêncio dos olhos
Orações em ruídos em buzinas alheias
Apressando a licença, distraindo a beleza.
O hálito das estrelas cheira pólvora e flor,
Anuncia:

O pôr-do-céu pode ser delícia ou amargo
O pôr-do-céu pode ser violento ou um agrado

É quando a gente se lembra,
A presença de nossa ausência é como censura trêmula
Na insistência da vida em brilhar.
E ainda que eu confunda o prazer e a sorte
Os atalhos e drogas que aumentam a distância
As horas acontecem fora do relógio,
Anunciam:

O pôr-do-céu pode ser delícia ou amargo
O pôr-do-céu pode ser violento ou um agrado

E se o sol dançasse feito vela, para quem seriam nossas orações?
E se a lua fosse sempre tímida, como seriam nossas paixões?

sábado, 15 de novembro de 2008

Nostalgia de Incertos Futuros

Pode ser que pés driblem religiões, a tímida mão estendida
A intensa realidade do sofrer
E a cultura pós-vanguarda de ruas que alagam lágrimas.
Pode ser que pés fujam protótipos da estética marginal,
Culpas que não fazem diferença,
Catequeses "exumênicas"
E a intensa presença do medo em nossos hábitos.
A esquina pra um novo despacho hi-tech é ali,
A dois passos da nostalgia de incertos futuros,
Pra gente saber:
O pivete já não é nosso medo de ser.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

O meu medo de se seduzir

A Última Fome [ou o milagre que rezo todos os dias]

À minha mesa, que desça.
A boca que reza
A boca que espera.
A última fome,
Milagre
O meu medo de se seduzir
E do teu verbo não faz minha carne
Um magro sorriso que ri.
Tua ceguidão
E dos restos,
Mesmo assim eu peço a benção
Agradeço:
A última fome é o milagre que espero..
.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

E já que sonhos não envelhecem...

Sonhar não é o que resta

Os joelhos que nos fazem fé,
Milagres que nos sinceram
As respostas pra seguir em pé.
E distantes do sofá,
Mas distantes do sofá
Sonhar não é o que resta sonhar.

Se sonhar é o que resta,
Me diz o que eu não fiz

Sonhar não é o que resta, sonhar.

Às vezes me sinto refém
Da comodidade do meu céu.
E a ânsia de não errar,
A ânsia de não errar
Do medo de não rezar.

Se sonhar é o que resta,
Me diz o que eu não fiz

Sonhar não é o que resta, sonhar.

Sonhar não é o que resta sonhar.
Às vezes me sinto refém,
Às vezes me sinto refém do meu céu.

domingo, 19 de outubro de 2008

Botão de Flor

A Senhora é uma rosa
Boneca negra é botão de flor
Quando ela se abre pra mim
Canto em seu louvor

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Coroa

A coroa que pus na cabeça nos meus sonhos
A coroa que pus na cabeça nos meus sonhos
Não era de ouro
Não era de espinhos
Eram tuas mãos fazendo carinho.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Se valeu a pena esperar

Passa tempo, passa o tempo, passatempo. E a gente segue colecionando instantes ou, ao menos, deveríamos. Assim como somos feitos de pequenos átomos, células e outros bichinhos pequeninos e invisíveis, o tempo é assim, feito de instantes e pequenos momentos. Bom quando se sai por aí sem rumo, soprando o próprio rosto como fosse o vento que sugere a liberdade, querendo cansar os pés de qualquer coisa. Nenhuma trilha, se valeu a pena esperar.  

Nenhuma Trilha

Se meus dedos tropeçam almas
E distanciam medos,
Uma paz qualquer do teu colo
Vou rezar mais perto do céu.
Se meus dedos excitam lágrimas
E engatilham beijos...

Eu sem iscas, mas com teus vários corações
Vou pescar meu segundo lar.

E como o vento apaga a vela,
Um final sem esperança
Às vezes é a fome em qualquer solidão.

Eu sem iscas, mas com teus vários corações
Quando tudo cinza,
Mesmo nas fotos mais coloridas.

Nenhuma trilha, se valeu a pena esperar.

E se meus dedos mastigam curas
E costuram tempos?
O livro que escrevo o silêncio que ouvi
Amanhã é a voz para mais um amor...

Eu sem tintas, mas com as cores da ilusão
Colorindo esquinas
E essas manhãs escuras.

Nenhuma trilha, se valeu a pena esperar.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

E eu casei com a distância...

Já que o assunto é saudade, esse texto de aproximadamente uns cinco anos atrás vem de encontro ao propósito. Ao contrário de 90% dos meus assopros escritos, este veio em cinco minutos e em uma carga de emoção muito forte. Dá até pra se dizer que a tinta que o escreveu foi uma tinta salgada e benta, cor de lágrima. Distante de casa, numa longínqua Maceió, poucos conhecidos, alguns quilos mais magro, a mulher da minha vida e pela qual atravessei um país aceitando uma outra verdade que não a minha. Talvez, meu primeiro grande amor, minha primeira mulher da minha vida. Talvez a paixão mais sincera que já tive. Talvez o primeiro texto propriamente dito de amor que escrevi. Talvez...
 
Na Orla dos Sonhos Distantes

Na orla dos sonhos distantes,
O teu beijo de reza
E esse sorriso de circo.
 
Além nós,
Um dia que não clareia
Dúvidas, remédios...
E o medo de esperançar
 
No ventre dessa saudade santa,
O breve contágio da rotina
E tuas ciências artesanais
 
Além pele,
Um pensamento vizinho.
O sono, o sonho, o tempo.
E eu casei com a distância.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Salve, salve Wally!

Como uma de minhas referências, tenho dois escritos que passeiam bastante pelas idéias de formatação do grande poeta Wally Salomão e o seu "Mel do Melhor". Assopro um deles aí embaixo...

Antigos

Enquanto as rugas se fazem maquiagem do tempo,
O pulmão da cidade respira o ar que vem do concreto
E a poeira do inédito engana o vai-e-vem dos ingênuos.

Enquanto os mais longes céus se tornam cada vez mais rasteiros
E o calor da engenharia queima as línguas do sol,
As feridas do futuro sangram em nosso silêncio.

E os antigos irão sonhar com as manhãs e a luz pra clarear
O hoje que apressa o fim sem admirar o falso milagre.

Enquanto o atrito dos dias carrega o raro descanso da idade,
Os alheios ao encardido entusiasmam o desperdício
E o ânimo farpado dos discretos espinha as nossas vontades.

Enquanto o silêncio das doenças é o ruído dos finados
E as antenas dos distraídos arranham o firmamento mais barato,
Os atrevidos alimentam as utopias do passado.

E os antigos irão sonhar com as manhãs e a luz pra clarear
O hoje que apressa o fim sem admirar o falso milagre.