São os ventos que nos trazem e levam. Um dia me disseram que no tal calendário maia eu sou vento. Acho que todos nós somos meio vento... às vezes um vento assustado, outras daqueles teimosos. Ventania, assopro, ventinho. Depois de muito tempo, consegui escrever novamente sobre o vento, e agora com o título que dá nome a este meu espaço. É isso.
ANATOMIA DOS VENTOS
Engrenagem dos ventos,
Combustível do tempo
Me lambuze com teus babados
Fique grávida de minhas idéias
E me dê seus seios e seu leite em toda
Essa infância teimosa até para se acabar.
Arquitetura de minhas sombras,
Parede dos invisíveis
Minha calha, minha goteira.
Meu conta-gotas e minha inundação.
Coreografia do fogo,
Atalho engarrafado dos ventos
Martelo de líquido e vidro da nossa justiça.
Gole quente e amargo
Queima a minha garganta,
Assanha meus lábios com tuas ardências
Ó Santa Cana dos meus desastres e de minhas manutenções.
Me ensina, me aprende e me seja:
Meu trêmulo umbilical,
A insônia do meu gozo
E as inquietudes do meu estômago.
Farelos caídos do tempo,
Os ponteiros preguiçosos do destino
Um relógio sem pressa e emprego
Onde eu compro horas?
Onde eu compro horas?
Onde eu compro horas, hein?
Relicário dos ventos,
Guardados de momentos
São garranchos tortos em silêncio
A vida já é um trocadilho
A gente é que passa ligeiro.
E a minha?
Minha vida é a anatomia dos meus ventos.


